Num dia ele está correndo no parque. No outro, levanta uma das patas de trás e evita apoiá-la no chão. Depois de alguns dias, parece melhorar, mas volta a mancar assim que retoma os passeios. Esse é um dos quadros mais comuns no consultório de ortopedia veterinária, e na maioria das vezes tem a mesma origem: a ruptura do ligamento cruzado cranial.
Neste artigo, explicamos o que é essa lesão, como reconhecer os sinais, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.
O que é o ligamento cruzado cranial
O joelho do cão tem dois ligamentos cruzados, que se cruzam dentro da articulação e ajudam a mantê-la estável. O ligamento cruzado cranial é o principal responsável por impedir que a tíbia deslize para a frente em relação ao fêmur quando o cão apoia o peso na pata.
Quando esse ligamento se rompe, o joelho fica instável. A cada passo, a articulação se desloca de forma anormal, o que causa dor, inflamação e, com o tempo, desgaste da cartilagem e artrose.
Por que o ligamento se rompe
Diferentemente do que acontece com pessoas, em que a ruptura costuma ser resultado de um trauma, nos cães ela acontece na maioria das vezes de forma degenerativa. O ligamento vai enfraquecendo aos poucos até se romper, muitas vezes durante uma atividade comum, como um pulo ou uma corrida.
Um dos principais fatores é a inclinação do platô tibial, a parte de cima da tíbia onde o fêmur se apoia. Quanto maior essa inclinação, maior a sobrecarga sobre o ligamento.
A lesão pode acometer cães de qualquer idade, raça ou porte, mas é mais frequente em:
- cães adultos jovens;
- cães com sobrepeso e sedentários;
- raças como Labrador e Golden Retriever;
- cães com algumas doenças hormonais, como o hiperadrenocorticismo, que enfraquecem as fibras do ligamento.
Sinais de ruptura do ligamento cruzado
- claudicação em uma das patas traseiras, que pode surgir de repente ou de forma gradual;
- dificuldade ou recusa em apoiar a pata no chão;
- melhora parcial depois de alguns dias de repouso, seguida de piora quando o cão volta à atividade;
- dificuldade para levantar, sentar, pular ou subir escadas;
- ao sentar, o cão mantém a perna afetada esticada ou de lado, porque evita dobrar o joelho por causa da dor;
- perda de massa muscular na coxa, nos casos mais antigos;
- em alguns casos, um estalo no joelho ao caminhar, que pode indicar uma lesão associada no menisco.
Ruptura parcial e ruptura total
A ruptura pode ser total ou parcial. Na parcial, os sinais costumam ser mais leves e intermitentes, o que faz muitos tutores acreditarem que o problema passou. Mas o ligamento parcialmente rompido continua se degenerando e, na maioria dos casos, evolui para a ruptura completa. Por isso, mesmo uma claudicação leve merece avaliação.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico. No exame ortopédico, o veterinário avalia a estabilidade do joelho com testes específicos, como o teste de gaveta e o teste de compressão tibial. A forma como o cão senta também ajuda a identificar a lesão.
O raio-X é essencial para avaliar a articulação, medir a inclinação do platô tibial e planejar a cirurgia. Em alguns casos, exames como ultrassonografia e ressonância magnética complementam a avaliação.
Como é o tratamento
Como a ruptura nos cães está ligada à inclinação do platô tibial, o tratamento cirúrgico mais utilizado hoje não substitui o ligamento. Ele modifica a biomecânica do joelho para que a articulação fique estável mesmo sem o ligamento.
A técnica mais usada é a TPLO, sigla em inglês para Osteotomia de Nivelamento do Platô Tibial. Na cirurgia, a parte de cima da tíbia é cortada, rotacionada para corrigir o ângulo do platô e fixada com placa e parafusos. A TPLO permite o apoio precoce da pata no pós-operatório e tem um excelente índice de recuperação. Saiba mais sobre a TPLO.
A escolha da técnica depende da inclinação do platô, do porte, da idade e de outras alterações no joelho, como a luxação de patela, que pode ser corrigida na mesma cirurgia. Quando há lesão no menisco, ela também é tratada durante o procedimento.
Em alguns casos, principalmente em cães de pequeno porte e com pouca instabilidade, o tratamento conservador pode ser considerado. Ele envolve repouso, controle da dor e do peso e acompanhamento próximo. A indicação depende da avaliação individual de cada paciente, e por isso a consulta com um ortopedista é tão importante.
Como fica a recuperação
O período de recuperação da TPLO costuma variar de 8 a 12 semanas. Nesse tempo, é preciso controlar a atividade do cão, evitando corridas e saltos até a consolidação do osso.
A fisioterapia é uma grande aliada para recuperar a força muscular e o movimento do joelho. No CORA, os pacientes operados fazem a fisioterapia na própria clínica, acompanhados pela mesma equipe que realizou a cirurgia.
E a outra pata?
Como a ruptura costuma ter origem degenerativa, é comum que o ligamento do outro joelho também seja afetado com o tempo. Manter o peso adequado, evitar pisos lisos e acompanhar o cão com regularidade ajuda a reduzir esse risco e a identificar qualquer alteração no início.
Perguntas frequentes
Meu cão pode viver sem operar?
Depende do caso. Sem tratamento, o joelho continua instável, o que leva à artrose e à dor crônica. Em cães pequenos e com pouca instabilidade, o tratamento conservador pode ser uma opção. A avaliação ortopédica define o melhor caminho.
A ruptura pode se curar sozinha?
Não. O ligamento rompido não se regenera. O que pode acontecer é uma melhora temporária da dor, o que muitas vezes leva o tutor a adiar o tratamento enquanto a articulação continua se desgastando.
Quanto tempo depois da cirurgia ele volta a apoiar a pata?
Na TPLO, o apoio costuma acontecer logo nos primeiros dias depois da cirurgia, de forma gradual. A liberação para atividades mais intensas acontece depois da consolidação do osso.





